terça-feira, 14 de junho de 2011

A quinta coluna de Alagoinhas

Sócrates Santana

O jeito escorregadio do prefeito de Alagoinhas, Paulo Cezar (PSDB), tem estreita relação com a maneira distante que a família Magalhães tratou por toda a vida os assuntos da Bahia. Assim como o avô, o deputado federal Jutahy Magalhães Junior é visto pela esfera pública baiana como um forasteiro. E como tal, deixa a revelia a política partidária no estado. A saída do prefeito do litoral norte do ninho tucano, portanto, é reflexo de uma prática familiar antiga. O maior problema é que o velho Juracy Magalhães também deixou outros ensinamentos.

No dia 13 de maio de 2010, o governador Jaques Wagner (PT) visitou o município de Alagoinhas. Na oportunidade, Paulo César declarou apoio para a reeleição petista no estado e para o candidato a presidência José Serra (PSDB). Sem pestanejar, o “galego” aceitou a adesão, mas, cutucou: “Político tem que ter lado. Não pode acender uma vela para Deus e outra para o Diabo”. De volta ao agreste baiano, Wagner retornou a Alagoinhas para inaugurar um quarto trecho de uma avenida tão extensa que cabe dentro dela vários nomes e, principalmente, lados: Carlos Gomes, Juracy Magalhães, Luís Eduardo Magalhães e, agora, Joseph Wagner, pai do atual governador dos baianos.

No entanto, o que mais intriga neste aparente movimento de “biruta de aeroporto” conferida ao prefeito de Alagoinhas é o recente anúncio realizado por ele: “É grande a probabilidade de que eu vá para o PDT”. E o mais engraçado é perceber como a história, volta e meia, vai e volta. Após ter sido escolhido na década de 30 pelo ditador Getúlio Vargas como interventor na Bahia, Juracy Magalhães cultivou 15 anos depois uma vida secreta. Foi informante do FBI no Brasil e preparou um novo golpe contra o patrono do PDT, o mesmo Getúlio Vargas que lhe nomeou governador.

Talvez, pouco consciente dessas coincidências da história, o prefeito de Alagoinhas termina por participar de uma intrigante articulação no estado, que revela a mudança de atores, mas, as mesmas intenções de sempre: o comando do poder. Ou a troca dele. O fato é que o fratricídio petista no município de Alagoinhas facilidade a difusão de boatos e uma espécie de quinta-coluna em curso. A desmoralização pública do vereador Miguel Silva (PT) na Câmara de Vereadores e a viabilidade eleitoral do vereador Luciano Sérgio empurra o ex-prefeito e deputado estadual Joseildo Ramos (PT) de volta para o cenário local.

O parlamentar petista, apesar de um curto período no legislativo baiano, demonstra enorme facilidade de analisar e perceber o movimento de cada peça de xadrez na Assembleia Legislativa da Bahia. De como as decisões da sala do cafezinho influenciam a política no estado. Joseildo, portanto, seria uma perda inestimável para a bancada petista. Uma peça a menos neste tabuleiro chamado sucessão. Seja no âmbito municipal, seja no âmbito estadual.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O que será do PSD

Sócrates Santana


Não é tarefa fácil definir qual será o papel desempenhado pelo PSD na política nacional. A possibilidade do partido produz sintomas por todo o país profundamente ambíguos e conduzem qualquer observador a diagnósticos contraditórios. Se uns parecem sustentar, de modo convincente, que o PSD é um artifício do Palácio do Planalto para esvaziar a oposição ou uma espécie de PMDB alternativo, outros parecem defender, com igual persuasão, que o PSD é ele próprio uma oposição travestida, uma força tão heterogênea que relega a esquerda às margens.
A esfera pública vive dentro de um sistema público muito instável em que a mínima flutuação, inclinação, gesto ou movimento de um ator, seja vereador, prefeito, deputado ou governador, provoca rupturas em qualquer olhar, independentemente de que ângulo o observador esteja. Assim, olhando o PSD, ora vemos um vaso grego branco recortado, ora vemos dois rostos gregos de perfil, frente a frente, recortados sobre um fundo branco. Qual é o verdadeiro? Ambos e nenhum. É esta ambigüidade e a complexidade dela que mais intriga e impacta no partido criado pelo prefeito paulista Gilberto Kassab.
O PSD aparece num período de transição. E como tal, difícil de entender e de percorrer. Nesses momentos, tenho o hábito de voltar às coisas simples, à capacidade de formular perguntas simples, perguntas que, como Einstein costumava dizer, só uma criança pode falar, mas que, depois de feitos, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade.
O progresso do PSD contribuirá para melhorar ou para corromper mais a política? Há alguma relação entre o PSD e o PT? Entre o PSD e o PSDB? Há alguma razão de peso para substituir o fisiologismo do PMDB que já é de conhecimento geral por um partido produzido por poucos e inacessível à maioria (o povo, não os políticos)? Contribuirá o PSD para diminuir o fosso crescente na nossa política entre o que se é e o que se aparenta ser, o saber dizer e o saber fazer, entre a teoria e a prática?
A fase de transição que vive hoje a política brasileira, que deixa perplexo o espírito mais atento e faz a esquerda, principalmente, refletir sobre os fundamentos da política, gera um impacto variado de distorções, ora pelo governo, ora pela oposição. Hoje, somos todos protagonistas e produtos dessa nova ordem, testemunhos vivos das transformações que ela produziu.
Mas, o fato é que não só a oposição, também a esquerda, esta perplexa, porque, perdeu a confiança de interpretar a crise; deixou instalar internamente uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não se sabe ao certo o que estar em vias de perder; talvez, essa sensação de perda seja apenas o medo que sempre precede os últimos ganhos. No entanto, existe sempre a perplexidade de não sabermos o que haverá, de fato, a ganhar.
Daí a ambigüidade e complexidade deste período, elevada, sem dúvida, pela possibilidade do PSD. Daí também a idéia, hoje partilhada por muitos, de estarmos numa fase de transição. Daí, finalmente, a urgência de dar resposta a perguntas simples, elementares, inteligíveis. Numa época de hegemonia quase indiscutível da esquerda no país, a resposta à pergunta sobre o significado sócio-cultural da crise na esquerda, não pode obter-se sem primeiro se questionarem as pretensões do PT. É um partido para o poder ou o poder para o partido? O que será do PSD?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Todas as formas de governo do DEM

Sócrates Santana


O ex-deputado federal José Carlos Aleluia começa mal a entrevista no jornal A TARDE quando afirmar que o DEM é o maior partido de oposição na Bahia. Não é verdade. Ao menos, publicamente, o maior partido de oposição no estado é o PMDB. Seja pelo número de filiados, prefeituras ou deputados, o PMDB é maior. Sendo assim, o DEM será conduzido pelo PMDB de Lúcio Vieira Lima. Não será o contrário.


Como é peculiar aos carlistas, o olho é sempre maior que a barriga. Se não for assim, peço que os peemedebistas corrijam este comentário. Talvez, argumentos não faltem para o PMDB regional, já que o vice-presidente, Michel Temer, é um aliado nacional. Sem dúvida, se o PMDB baiano recusar a condição de oposicionista, aí a avaliação do José Carlos Aleluia estará correta mesmo.


O outro ponto vazio do discurso do presidente do DEM diz respeito à falsa idéia de partido da sociedade. O Democrata é essencialmente não-social. Não possui lastro social. Ou seja: nunca será um partido da sociedade. O filosofo francês Michel Foucault escreveu um livro chamado “Em defesa da sociedade”, onde exemplifica como entender o ódio do DEM contra o PT. Ou seja: Aleluia procura uma justificativa cientifica para permitir o domínio do DEM sobre as forças de esquerda. Aleluia esquece que o DEM sempre utilizou e possuí essa característica de dominação sobre os mais fracos entre os seus correligionários.


De maneira proposital, Aleluia reduz o acúmulo histórico atribuído por todas as frentes populares e progressistas do país ao “petismo”, porque, a única maneira de disputar é generalizar: na boca de Aleluia petismo é sinônimo de governismo, governismo sinônimo de aparelhamento, aparelhamento é sinônimo de autoritarismo. Ou seja: todas as formas de governo do DEM.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O porteiro de Salvador

Sócrates Santana

Após três eleições sem êxito, a partir de 2008, o deputado federal Nelson Pelegrino deixou de ser o primeiro da fila para entrar no Palácio Thomé de Souza. Com o apoio do deputado estadual J. Carlos, o hoje senador Walter Pinheiro venceu as prévias e retirou de Pelegrino a prerrogativa de postular pela quarta vez consecutiva a candidatura majoritária da capital baiana. Pinheiro perdeu as eleições contra o candidato a reeleição pelo PMDB, o prefeito João Henrique, mas, dois anos depois compôs a chapa do governador Jaques Wagner, sendo eleito senador ao lado da socialista Lídice da Mata.

Pinheiro é o primeiro da fila. A fila anda. Pinheiro tem mandato de oito anos. Wagner não será mais candidato ao Palácio de Ondina. Pelegrino pressupõe que retornou para o primeiro lugar dela e a próxima eleição vem aí: 2012. Mas, faltou combinar com os russos: o deputado federal Valmir Assunção levanta o dedo, alguns torcem o nariz e o esforço para estabelecer uma ordem interna vira um conflito entre três homens.

O senador petista é o mais tranqüilo em relação às eleições de 2012, apesar de não perder uma oportunidade para apimentar o debate sobre a sucessão municipal. Se não é para disputar as urnas à vera, pelo menos, assim imagino, Pinheiro aproveita o ambiente para preparar o terreno até as eleições de 2014. Afinal de contas, não é segredo para ninguém a vontade do senador petista trocar o parlamento pelo o executivo.

O carro fica na frente dos bois. A prudência do governador Jaques Wagner cede lugar para a habitual precipitação das disputas municipais. Ao invés de fortalecer as relações históricas e aproximar possíveis aliados de uma candidatura capaz de reunir todos os partidos que dão sustentação ao governo estadual, a natural candidatura petista troca as mãos pelos os cotovelos. O PT tem a chance de construir um programa de governo singular, que não precisa aguardar as eleições de 2012 baterem na porta para serem implantados na cidade, mas, o partido escolhe a via crucis.

As investidas de João Henrique em prol de uma aliança estratégica com o PT não são novas. Em 2007, fez de tudo um pouco para ingressar no partido, mas, terminou no encalço da principal agremiação aliada do governo: o PMDB, que resolveu lançar candidatura própria em 2010 e deixou de ser conveniente às pretensões do prefeito. Confirmada a reeleição de Wagner, João eleva os níveis de tensão com o PMDB e é expulso do partido, tendo em vista duas vias expressas capazes de ligar os palácios de Ondina e o Thomé de Souza: PDT e PP.

João filia-se ao PP. Talvez, sem deixar de lamentar. Afinal de contas, ingressa no partido progressista porque não pôde esperar por mais tempo a formação de um novo partido, como afloram o PDS ou o PDB. Ambos reúnem os predicados ideais para uma figura atípica como João Henrique, que não deseja brigar com ninguém e menos ainda com o PT. A preocupação do prefeito é natural, pois, o PP é hoje o terceiro maior partido de sustentação do governo Dilma e o segundo do estado. Ao assumir o comando da prefeitura, o PP arregala os olhos até mesmo do mais zen dos petistas.

O novo chefe da Casa Civil da prefeitura, o deputado federal licenciado João Leão resolve acalmar os ânimos dos petistas ao estilo Leão: assopra e morde. Convida o PT para compor o governo João Henrique e mete o nariz na sucessão municipal ao defender o nome de Walter Pinheiro. Ou seja: defende um nome petista, contanto que seja alguém que ceda um espaço para o PP, pois, o suplente do senador petista é o progressista Roberto Muniz.

Enquanto isso, Pelegrino não abre mão sequer da liderança da bancada baiana. Escora os aliados históricos, especialmente, o deputado comunista, Daniel Almeida. Os vereadores, Henrique Carbalhal, Gilmar Santiago e Marta Rodriguez, Vânia Galvão, Dr. Giovani e Moisés Rocha permanecem na oposição, sem ao menos abrir uma porta (mesmo que crítica) de diálogo com a administração municipal. Não apresenta sequer uma lista de exigências ao alcaide e deixa a opinião pública com a sensação de que o partido torce pelo naufrágio da cidade.

Entra em cena o argumento republicano do governador para participar do ato de filiação de João Henrique, dando ênfase aos desafios da Copa de 2014. Wagner estende a mão para quem foi classificado pela própria primeira-dama como “cachorro morto” e ao estilo Jaques intervém no tabuleiro sem descartar nenhuma possibilidade. Porque, toda fila tem um porteiro.

segunda-feira, 14 de março de 2011

As colunas de Ondina

Sócrates Santana

Há um desassossego no ar. Temos a sensação de estar na orla do tempo, entre um presente quase a terminar e um futuro que ainda não nasceu. Algo debelado pela evidente inanição da oposição no estado, que expõe as vísceras da base governista. Após o declínio do império carlista, os holofotes estão voltados para ascensão de uma nova ordem petista.

Mas, o establishment invoca a coalizão, impõe alianças fotográficas e implode no interior do governo as colunas do Palácio de Ondina. Por um lado, o alvoroço de sempre entre o PT e o PCdoB. Por outro, o castelo de cartas marcadas do PP e do PSB. E, mais adiante, o balcão de dificuldades do PRB e do PDT.

As colunas que sustentam o governo não estão projetadas simetricamente para as eleições de 2012. É notório, por exemplo, o constrangimento do PCdoB de Daniel Almeida, Edson Pimenta e, principalmente, de Alice Portugal. Apesar de negar, a condição de apêndice do PT incomoda até mesmo os comunistas mais arejados pelo o governo. As vereadoras Olívia Santana e Aladilce Souza acabam tendo o papel de foice e martelo do divã bolchevique.

Enquanto os comunistas esquivam-se das “condições históricas”, o PSB baiano contempla as investidas do cacique Eduardo Campos no cenário nacional. O governador pernambucano acena para tucanos, democratas e pedetistas, sem qualquer inibição ideológica. Insinua uma candidatura alternativa para o país, como inúmeras vezes, esperneou o cearense Ciro Gomes.

A articulação nacional congela as peças socialistas no estado. O exemplo é a inércia do partido em relação à saída de vereadores da legenda no âmbito da capital. Nem o legislativo estadual detêm a atenção da cúpula socialista. Sem o controle dos mandatos dos deputados estaduais, Sargento Isidoro e Capitão Tadeu, o comando do PSB aguarda a passagem das nuvens.

O retorno cabisbaixo de Domingos Leonelli para o executivo, após uma fragorosa derrota eleitoral, manchou a vitória da senadora Lídice da Mata. Resta aguardar o fim do carteado entre o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, e o vice-governador, Oto Alencar. A criação de um novo partido faz parte de uma crônica anunciada. Uma distração, que serve de ponte para uma aliança ampla e menos maniqueísta do que a dicotomia PT e PSDB. Sem opção para 2012, o PSB baiano recua em prol do que pode vir a ser 2014.

É uma história velha. Sem a mística brizolista, o novo PDT de Marcos Medrado, José Carlos Araújo, Marcelo Nilo e Paulo Câmara, estica a corda e estimula os demais. Entre eles, o PRB sitiado pelos interesses da Igreja Universal do Reino de Deus, que ao atrair o promotor Almiro Sena para a legenda, dando o empurrão necessário para assumir a secretara de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos, também assinalou que a vestimenta religiosa não interfere na condução política do partido. Numa cidade predominantemente negra, endossar o nome de um militante voltado para os interesses dos povos de matriz africana é um gesto significativo para quem esboça vôos mais altos, sem tirar os pés do chão.

Do Palácio de Ondina ao Thomé de Souza é construída uma via expressa chamada PP. Sem contornos, o ingresso do prefeito João Henrique à legenda representa o alinhamento das esferas estadual e municipal. Ao ceder mais uma cadeira para o PT na Câmara Federal ao juazeirense Joseph Bandeira, o PP do novo secretário municipal João Leão não representa um adversário para 2012.

Ao contrário, o PP adquire mais gordura para quem sabe, sem pressa, nem palpitações, assistir a Copa do Mundo de 2014 da tribuna, seja ao lado do ministro Mário Negromonte ou do candidato ao senado João Henrique. O PP sabe que o comando da prefeitura é rarefeito, não possui densidade política, porque, não é fruto da vontade geral necessária para tal efeito. É apenas uma convenção, um arranjo de bastidor, que precisa do aval popular para encontrar o seu alicerce. Apesar de eleito por duas vezes, João Henrique não tem uma procuração do povo que lhe permita agir em desconformidade com o programa que lhe garantiu a reeleição. Um programa peemedebista, diga-se de passagem.

Já os petistas...os petistas estão seguros de que os hábitos pessoais e os interesses condicionam as doutrinas de aliados e opositores, assim como estão seguros de que as suas próprias crenças são absolutamente universais e objetivas. O PT tende a ser petista em relação aos outros e governista em relação a si próprio, quando a melhor maneira de compreender a condição do partido neste cenário seria a inversão desses ângulos. Ou seja: ser governista em relação aos outros e petista em relação a si próprio.

É da natureza do homem disputar, guerrear, ressentir-se e acabar pondo tudo a perder. Quem almeja acumular forças para manter ou alterar o próximo período, contudo, não pode agir como se estivesse brigando pela direção de um sindicato ou de um grêmio estudantil. Nem tão pouco encarar as eleições de 2012 como uma correia de transmissão, hereditária e determinista.
Diz o mestre Sun Tzu: “Quando o exército está inquieto e receoso, é certo haver perturbações provocadas por outros príncipes inimigos. Trata-se apenas de introduzir a anarquia nas tropas, jogando fora a vitória”.

Enquanto isso, a platéia, PSDB e PR, acompanham o camarote andante do governo, sem deixar de olhar os dois lados antes de atravessar: DEM e PMDB, que assumem o papel de intrigar, despistar e divergir.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O baralho do Clube dos 13

Sócrates Santana

Torço contra qualquer time carioca e o Corinthians do ex-presidente Lula. E que tem haver meter o dedo de Lula nesta história de torcida? É que o assunto diz respeito à política. E falar de Lula virou sinônimo de política e, às vezes, de futebol. O assunto em questão extrapola o duelo entre as equipes e a paixão das pessoas por um esporte mundialmente aplaudido pelo seu espírito democrático e conciliador. O futebol brasileiro experimenta uma crise sem precedentes, inflamada pela disputa entre duas emissoras de tevê: a Rede Globo e a Rede Record.

Cinco dos 13 fundadores do Clube dos Treze anunciaram a saída da entidade. São eles: o Flamengo, o Fluminense, o Botafogo, o Vasco da Gama e o Corinthians. O Clube dos 13 é uma associação que representa os interesses dos maiores clubes brasileiros. Entre eles, o Esporte Clube Bahia.

Em 1997, a associação consegue negociar um contrato milionário com a tevê Globo. A emissora adquire o direito de retransmitir os jogos desses clubes no campeonato brasileiro. O contrato fortalece o Clube dos 13, que passa a defender também os interesses de mais 7 clubes: Coritiba, Goiás e Sport, além de Atlético-PR, Guarani, Portuguesa e Vitória.

A lua-de-mel com a Globo termina, após a Rede Record propor ao Clube dos 13 uma oferta para adquirir os direitos de imagem dos jogos do campeonato brasileiro. Trata-se de uma proposta legitima e obediente às regras de concorrência do mercado. Entretanto, o aceno da Record não agradou os interesses da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Rede Globo de Televisão, e iniciam uma campanha ofensiva para derrubar o presidente do Clube dos 13, Fábio André Koff.

As eleições para a presidência da entidade é o primeiro ato para deflagrar o racha de interesses no Clube dos 13. De um lado, Kleber Leite, o candidato da CBF, ancorado no Botafogo, Corinthians, Coritiba, Cruzeiro, Goiás, Santos, Vasco e Vitória. Do outro, o candidato à reeleição, Fábio Koff, ancorado na maioria composta pelo Atlético-MG, Atlético-PR, Bahia, Flamengo, Fluminense, Grêmio, Guarani, Inter, Palmeiras, Portuguesa, São Paulo e Sport. Por 12 votos a 8, Fábio Koff é reeleito.

Após uma decisão controversa, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, anuncia oficialmente no dia 21 de dezembro a unificação dos títulos de campeão brasileiro de 1959 a 1970. Uma sinalização que agradou e muito, clubes como o Fluminense e o Bahia. O último, inclusive, beneficiado pelo título simbólico de primeiro campeão brasileiro do país.

O terceiro capítulo coloca em mãos opostas a polêmica Taça das Bolinhas: Flamengo e São Paulo, que disputam o troféu criado pela Caixa Econômica Federal numa acirrada luta pelo reconhecimento do primeiro time pentacampeão do país. O embate reacende o debate sobre o título de 1987. Até então, o clube que respondia pela conquista de 1987 era o Sport Recife, mas, a CBF voltou atrás e oficializou o título do Clube de Regatas Flamengo.

De volta às peças do quebra-cabeça, os dois clubes cariocas, anteriormente oposicionistas a CBF, Fluminense e Flamengo, viram a casaca. Inflados pelo crescimento econômico, atração de craques, prestígio da CBF e enorme visibilidade nas telinhas da Globo, os clubes cariocas iniciam a revoada do Clube dos 13.

De maneira subterrânea, as agremiações cariocas e o rubro-negro paulista negociam, paralelamente ao Clube dos 13, com a Rede Globo de Televisão os direitos de imagem sobre os jogos desses respectivos clubes no campeonato brasileiro. Ainda assim, o Clube dos 13 anuncia o edital de licitação que vai definir a emissora de tevê que terá os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro no triênio 2012, 2013 e 2014.

A emissora carioca, contudo, não aceita perder a concorrência do Brasileirão, principalmente para a Rede Record e também não aceita pagar o valor que os clubes desejam. A Rede Globo foi atingida em cheio após a decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), ano passado, que determinou que a cláusula de preferência que dava à Globo a possibilidade de igualar qualquer proposta fosse retirada. A partir deste momento, seus executivos iniciaram o trabalho de bastidores para minar qualquer chance da concorrência vencer a licitação.

A Lei Pelé (nº 9.615), contudo, no seu Art. 42, diz que pertence “as entidades de prática desportiva direito de negociar, autorizar e proibir a fixação, a transmissão ou retransmissão de imagem de espetáculo ou eventos desportivos de que participem. Ou seja: a negociação paralela entre os clubes e as emissoras fragiliza os valores comerciais dos jogos, porque, se um dos clubes de determinado espetáculo não tiver contrato com determinada emissora, o jogo desta não poderá ser transmitido. A arena do debate, portanto, pode sair definitivamente dos estádios para o Congresso Nacional.

Um caso emblemático, particularmente, diz respeito aos direitos de publicação do álbum de figurinhas do campeonato brasileiro. Uma disputa entre as editoras Abril e Panini em 2010 dividiu as bancas de revista. Nenhuma das duas editoras possuía o direito total pela publicação de todos os clubes que disputavam o campeonato brasileiro. O negocio fatiado fragilizou as negociações. Cada clube negociava individualmente com cada editora e no fim o valor comercializado era menor que o valor proporcionalmente dividido caso o álbum contivesse dos clubes num único pacote.

Aos dois clubes baianos, Bahia e Vitória, aparentemente em lados opostos, cabe compreender que a vida financeira de ambos os clubes não pode virar uma mera disputa entre torcedores de agremiações diferentes. A Globo é carioca e age em prol dos clubes do estado. Não tem o comportamento de uma emissora nacional. E os clubes do Rio de Janeiro não estão preocupados com as dificuldades financeiras dos times nordestinos. Não vacilar neste instante é permanecer no Clube dos Treze. Não é apenas futebol, é política.

Sócrates Santana é jornalista e torcedor do Esporte Clube Bahia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Bahia: soberania fiscal

Sócrates Santana

A ditadura da falta de alternativas jamais será derrubada por uma combinação de interesses estreitos e compaixões impraticáveis. O esforço fiscal anunciado pelo governador Jaques Wagner de R$ 1,06 bilhão no orçamento do Estado não pode e não deve ser encarado como uma mera política de contenção de recursos. Está é uma visão que vê o gerenciamento contracíclico da economia como o principal dever do Estado. Não é.

O governo deve dispensar o uso contracíclico da economia e evitar dinheiro artificioso, vivendo dentro de suas posses. O resultado desta releitura pode despertar uma febre de atividade produtiva, não pela supressão do mercado, mas pelo aumento das oportunidades de participar dele.

A Bahia precisa elevar os níveis de poupança doméstica para além do que um entendimento estreito da dinâmica do crescimento econômico pode justificar. É preciso aprofundar e encontrar novos arranjos que estreitem a relação entre poupança e produção, tanto dentro quanto fora dos mercados de capital tal como estes estão organizados (uma insistência embasada no reconhecimento de que esta relação é variável e sensível ao seu marco institucional).

É preferência do governo baiano uma alta arrecadação tributária, tendo disposição para alcançá-lo, mesmo ao custo de uma tributação progressiva, orientada para transações de consumo, porque, contemporaneamente, é no consumo que vive o conflito de classes. A meta maior dos secretários Zezeu Ribeiro, Manoel Vitório e Carlos Martins deve ser a completa mobilização dos recursos estaduais: uma economia de guerra sem uma guerra, uma economia de crise sem crise.

Não é o enxugamento da máquina pública. O realismo fiscal não é um programa, nem mesmo para a política macroeconômica. É, meramente, uma preocupação e uma possibilidade, porque, sua justificativa superficial é alargar uma liberdade de manobra que deve, então, ser usada. O que determina, contudo, o resultado deste esforço fiscal é como será usada essa liberdade de manobra. Afinal de contas, o realismo fiscal não ensina como usar esta dispendiosa liberdade.

A iniciativa do governo baiano em consonância com a política nacional pode vir a colaborar com a reinvenção do mercado, porque, este esforço pode redefinir os arranjos institucionais que fazem dele o que ele é. Porque, a esquerda não deve procurar suprimir o mercado, meramente regulamentá-lo ou atenuar suas desigualdades pela redistribuição compensatória restrospectiva.
A esquerda deve propor reinventar e democratizar o mercado, estendendo o âmbito de suas formas legais e institucionais. O anúncio do corte no orçamento federal e estadual não soa como um passo para trás da presidente Dilma e do governador Wagner. Mas, a continuidade de um projeto soberano de sociedade, uma espécie de soberania fiscal.