sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cento e dez anos de Prêmio Nobel

Ubirajara Bittencourt Santana*

Deixando as exceções de lado, não ganhamos um Nobel de ciências porque nunca merecemos. E nunca merecemos por quê? Será porque o Brasil nunca teve capacidade econômica para investir maciçamente em pesquisa, como nos países da Europa e os Estados Unidos? Ou faltou sabedoria política como a demonstrada pelos indianos, coreanos, que apesar de todas as suas dificuldades, investem tradicionalmente em pesquisas. Uma outra explicação para a falta de um brasileiro na longa lista dos Nobel, entretanto, é o número ainda pequeno de cientistas nos Pais. Quanto maior o número de pessoas desenvolvendo a mesma atividade coletivamente, maior a chance de surgir um gênio. Não é à toa que Pelé nasceu no Brasil.
No próximo dia 10 de dezembro, o Rei Carl XVI Gustaf e a Rainha Sylvia (brasileira), da Suécia, entregarão aos vencedores do prêmio Nobel de 2011 a soma US $ 1,5 milhão de dólares para cada uma das seis modalidades: MEDICINA, Bruce Beutler (USA), Ralph Steinman (Canadá), Jules Hoffmann (Luxemburgo), pela descoberta das células dendríticas, pela descoberta relacionada com a ativação da imunidade inata. FÍSICA: Saul Perlmutter, Brian Schmidt, Adam Riess (todos norte-americanos), descobriram conjuntamente através da observação de supernovas distantes que o universo esta se expandindo a uma velocidade acelerada. QUÍMICA: Dan Schechtman (israelita), pela descoberta dos "quase cristais". LITERATURA: Tomas tranströmer (sueco), pelo conjunto da sua obra e porque através das suas imagens condensadas e translúcidas, dão acesso à realidade. PAZ: Três mulheres do continente africano foram laureadas, Ellen Johnson Sirleaf (Libéria), Lexmach Growee (Libéria), Tawakkul Karman (Iêmen), pela luta pacífica em defesa da segurança e dos direitos humanos das mulheres na plena participação da construção da paz. ECONOMIA: Thomas Sargent e Christopher Sims (ambos norte-americanos), pela investigação empírica e efeito na macroeconomia, ou seja: Por terem desenvolvido métodos para responder a questões sobre a relação causal entre a política econômica e diferentes variáveis macroeconômicas, com o produto interno bruto (PIB), emprego, inflação e investimentos.
É lamentável que nesses cento e dez anos de existência do prêmio Nobel, o Brasil ainda não tenha conquista o seu Nobel. É importante ressaltar a importância do prêmio Nobel, não só pelo seu significativo valor em dinheiro, mas, sobretudo, como "termômetro" onde indica a qualidade da ciência, da literatura, da luta pela paz no mundo que cada povo carrega. A destinação das premiações do Nobel evidencia que a grande maioria dos pesquisadores detentores do prêmio Nobel nas áreas da física, da química e da medicina são representantes dos países desenvolvidos.
Os prêmios instituídos para o campo da literatura e o simbolismo da paz, estão historicamente destinados para os homens sensíveis dos países pobres, evidenciando talvez o simbolismo da divisão do mundo entre os mantenedores do progresso material da civilização, e os mantenedores do espírito lúdico dos homens. Fazendo uma visita ao ano de 1901, ano que se deu a primeira edição do prêmio Nobel, é marcado por grandes conquistas no mundo científico, no Brasil, é criado o Instituto Butatan por iniciativa do médico Emílio Marcondes Ribas, onde começa a produzir a primeira série de soros e vacinas antipestosas e a primeira série do soro antiofídico, enquanto isso na Europa, o russo Piotr Liében prova experimentalmente a pressão da luz, o inglês John Ambrose Fleming e o italiano Guglielmo Marconi realizam a primeira transmissão de rádio entre a Inglaterra e Canadá; O japonês Jokichi Takamine isola a epinefrina, também chamada de adrenalina, surge nos Estados Unidos a lâmpada de mercúrio; É realizada na Suécia em 10 de dezembro de 1901 a primeira edição do prêmio Nobel, "o prêmio máximo da literatura, ciência e da Paz".
O primeiro prêmio de Física foi para o alemão Wilhelm Konrad Roentgen, pela descoberta dos raios X em 1895 (dois anos depois já é utilizado aqui no Brasil, e curiosamente, na Bahia em 1897); O de química foi para o holandês Jacobus Henricus Van'tHoff, pela descoberta de leis da dinâmica e da pressão osmótica; O de Medicina ou Fisiologia, foi para o bacteriologista alemão Emil Von Behring, pela descoberta da antitoxina diftérica em 1890; O de literatura foi para o poeta francês Renè François Armand Sully-Prudhomme pelo conjunto de sua obra, principalmente seus dois livros de poemas, "As Experiências de 1866 e as Solidões de 1869"; O da paz foi para dois reformadores sociais, Jean Henri Dunant (suíço) pela fundação da Cruz Vermelha Internacional em 1863 (presente em nossos dias nos conflitos mundiais e nas tragédias da natureza), pela criação da convenção de Genebra (tão importante nos conflitos internacionais até hoje protegendo o direito humanitário), e também , para o francês Frèdèric Passy por fundar uma sociedade para a Paz na França. Não houve entrega ao de Economia, porque só foi instituído 68 anos depois em 1969.
O prêmio Nobel foi criado atendendo a um desejo manifestado por Alfred em seu testamento. Ele especificou os campos de atividades que desejava incluir - Física, química, fisiologia ou medicina, literatura e a paz. O prêmio consiste em uma medalha de ouro, um diploma e uma soma variável em dinheiro, que nesse ano será de US $ 1,5 milhão de dólares para cada categoria. Os vencedores são selecionados pela Academia Real de Ciências (física, química, economia), pelo Instituto Carolíngio (medicina ou fisiologia), pela Academia Sueca de Letras (literatura) e por um comitê escolhido pelo parlamento norueguês (Storting) o prêmio da Paz. O prêmio pode ser repartido em até três vencedores.
Entre os fatos mais curiosos da história do Nobel, aconteceu na cerimônia de entrega do prêmio de medicina em 1952, levada pela mão do pai, uma garotinha ofereceu a Selman Walkman cinco cravos vermelhos. Era um agradecimento aos cinco anos vividos pela menina desde que fora salva pela estreptomicina, o primeiro antibiótico eficaz contra a tuberculose.
Nesses cento e dez anos, o prêmio Nobel vem acompanhando as principais conquistas da ciência e da tecnologia e estimulando a paz entre os homens. Numa rápida olhada da relação dos trabalhos premiados em medicina ou fisiologia, nos mostra o aparecimento das novas drogas milagrosas, como a insulina (1923), as sulfas (1939), a penicilina (1945), a cortisona (1950) e também o desenvolvimento de técnicas revolucionárias, desde os primeiros progressos significativos em "sutura vascular", transplantes cirúrgicos de órgãos (1912), até o aparecimento dos eletrocardiogramas (1924) e os últimos avanços da tomografia computadorizada (1979).
Não falta igualmente os marcos da pesquisa fundamental, como a determinação da estrutura molecular do ácido desoxirribonucleico (DNA), que transmite as informações fundamentais dos seres vivos (1962)- permitindo a realização do mapeamento genético em 2003. Na química, a história se repete, desde a descoberta do hélio e dos gases raros em 1904 até as últimas pesquisas que permitem a observação e compreensão das reações químicas, em sua essência molecular. Na física, além da descoberta revolucionária dos raios X, foi também premiada: A fotografia em cores (1908), a teoria dos quanta (1918), o transistor (1956), a tecnologia dos lasers (1975), a holografia (1971), a supercondutividade (1972 e 1987).
Durante esses cento e dez anos houve alguns raros esquecimentos notáveis, como o russo Dmitri Mendeleiev, da tabela periódica dos elementos; do cirurgião sul-africano Christian Barnard, pelo primeiro transplante cardíaco; do médico e microbiologista polonês Albert Sabin, o da vacina oral contra a poliomielite; o biólogo americano Gregory Pincus criador da pílula anticoncepcional, do médico e bioquímico americano Oswald Avery, que demonstrou que o DNA é a molécula portadora da informação genética, a austríaca Lise Meitner, descobridora da fissão nuclear, o austro-húngaro Julius Lilienfeld, criador do transistor, o astrofísico americano Edwin Powell Hubble, descobriu que as chamadas (até então) de nebulosas, eram na verdade galáxias fora da via láctea, o físico Ucraniano George Gamow, explicou a física quântica da radioatividade, postulou a versão moderna do BIG BANG, propôs que as estrelas brilham por reações termonucleares e descobriu o conceito de código genético (um gênio humano), o escritor russo Léon Tolstoi, com seu célebre livro Guerra e Paz; O pacifista indiano Mahatma Gandhi, personalizou a paz em sua concepção mais ampla. O Nobel perdeu a chance de reconhecê-lo e tornou-se menor.
Deixando as exceções de lado, não ganhamos um Nobel de ciências porque nunca merecemos. E nunca merecemos por quê? Será porque o Brasil nunca teve capacidade econômica para investir maciçamente em pesquisa, como nos países da Europa e os Estados Unidos? Ou faltou sabedoria política como a demonstrada pelos indianos, coreanos, que apesar de todas as suas dificuldades, investem tradicionalmente em pesquisas. Uma outra explicação para a falta de um brasileiro na longa lista dos Nobel, entretanto, é o número ainda pequeno de cientistas nos Pais. Quanto maior o número de pessoas desenvolvendo a mesma atividade coletivamente, maior a chance de surgir um gênio. Não é à toa que Pelé nasceu no Brasil.
*Ubirajara Bittencourt Santana

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A função social da informação de interesse público

Sócrates Santana

A idéia, muito simples, vem das utopias democráticas do século 18: informar-se é direito de todos. Está escrito no artigo 11 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, França, 26 de agosto de 1789: “A livre comunicação das idéias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem”.

Devemos cultuar essa idéia com mais freqüência. Além de uma certa mística, ela tem lógica. A informação só é um direito do cidadão porque, na democracia, todo poder emana do povo e em seu nome é exercido – e é para delegar o poder que o cidadão tem o direito de estar bem informado. Sim, a idéia é bastante simples, mas, frequentemente é esquecida e vai se tornando uma frase feita, esvaziada e estéril.

A partir do século 19, a informação jornalística passou a circular em grande escala, como mercadoria. A imprensa tornou-se uma indústria. A democracia absorveu bem esse fenômeno e soube aperfeiçoar-se com base nele. Mas, atenção, a função social da informação de interesse público não se reduz à condição de mercadoria. A informação continua sendo um dos direitos mais preciosos do homem, de todo homem, mesmo que ele não tenha dinheiro para comprá-la. Ou é assim ou a própria democracia é que se terá tornado um projeto esvaziado e estéril.

A informação é um direito, assim como a educação é um direito, assim como a saúde é um direito. É um direito tão importante quanto os demais. É um direito de todos, independentemente das inclinações ideológicas de cada um. Ninguém conceberia que os professores de uma escola pública se dedicassem a doutrinar em lugar de educar corretamente os alunos. Ninguém aceitaria um hospital que admitisse os pacientes segundo critérios partidários. Pois o mesmo se pode dizer da informação: ela é um direito e deve ser oferecida igualmente a todos, de modo claro, impessoal, preciso, sem direcionamentos, sem interesses ocultos.

Por fim, termino este breve texto para defender a importância da criação da Secretaria Estadual de Comunicação, que por intermédio do Irdeb pode agora disseminar mais a noção de informação de interesse público dentro e fora do ambiente do governo. Seja por meio da criação de uma universidade coorporativa, seja na formulação do jeito Irdeb de comunicar. Ainda continua difusa e contraproducente a produção comunicacional deste que é o principal veículo de comunicação pública da Bahia. E para a consolidação de qualquer projeto revolucionário a partir do princípio democrático de governo, a formação de um aparelho público de informação é de extrema relevância para a consolidação do republicanismo desta nova Bahia que ainda está por vir.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O enigma baiano

Sócrates Santana

Infelizmente, os holofotes focalizam uma única e banal reforma administrativa possível no governo baiano. A tradicional troca de secretários e assessores, a fusão, criação ou eliminação de pastas, a típica disputa dos bastidores entre os partidos e o tamanho de cada um dentro do governo. Mas, uma reforma muita mais profunda e aguda para o estado está em curso: a reforma territorial da nossa administração pública.

Trocando em miúdos, a redistribuição e o deslocamento dos órgãos do governo nas regiões. Ou seja: o reposicionamento e a reconceituação dos papéis hoje desempenhados pelas Direc´s, Dire´s, Adab´s, Ebda´s, Car´s, Cerb´s, hospitais, centros de cultura, aeroportos, postos da Embasa. Para quem considera um prato cheio a acomodação dos partidos aliados no mapa do poder a partir dos cargos centrais das secretarias e ministérios, não imagina o que significa o varejo dos cargos regionais.

É assombrosa a maneira como o governo é coagido pelas lideranças locais, prefeitos e parlamentares a nomear apadrinhados políticos ou simplesmente imobilizar adversários, a partir do aparelhamento dessas estruturas estatais nas regiões. O planejamento do estado, às vezes, sucumbi ante o escarafunchar da coisa pública praticado em nome da manutenção da coalizão partidária.

Se, por exemplo, o conceito de território de identidade for levado à risca pelo governador Jaques Wagner ou sucessor discípulo das idéias do professor Milton Santos, diferente da atual configuração regional, Itabuna e Ilhéus, iriam compartilhar ao invés de duas, uma única DIREC e uma única DIRES. A opção corrigiria uma distorção iniciada pelo governo de Antônio Carlos Magalhães na década de 1970 e, ainda mais agravada, pelo seu sucessor, o ex-governador Roberto Santos.

Apesar de pioneira no que tange ao planejamento regional, a Bahia não colheu os louros da concepção vanguardista, porque, a ingerência política sobressaiu-se ante as necessidades e peculiaridades de cada região. Traduzindo: a criação de órgãos governamentais nas regiões, surgiram ao bel prazer dos interesses eleitorais que cada cidade representava para a consolidação de um regime posteriormente caracterizado como carlismo. O resultado foi um agravamento das diferenças socioeconômicas entre os municípios e graves problemas de cunho social e econômico entre os territórios.

A mudança, contudo, é encarada como um verdadeiro vespeiro eleitoral. Ao mesmo tempo que equilibra as relações político e administrativas entre as regiões, o deslocamento de algumas unidades estatais pode gerar uma verdadeira cruzada divisionista – não só de opiniões, mas, de territórios também. Na prática, se o governo optar pelo embate, a tendência é recuar, adiar ou ceder às pressões para a criação de mais territórios de identidade, como já ocorre no extremo e no litoral sul da Bahia.

No ritmo que o país cresce, é fundamental o aprofundamento do planejamento regional das ações governamentais. E este planejamento passa por uma reforma administrativa capaz de aproximar o estado dos municípios. Uma reforma física da administração pública. Porque, hoje, o modelo ainda vigente no estado, reproduz a concentração de capital nas regiões metropolitanas. E defender a criação de regiões metropolitanas, a exemplo de Vitória da Conquista, Irecê e Feira de Santana, significa ignorar o esforço do atual governo de ordenar a organização espacial do estado a partir dos territórios de identidade.

Sócrates Santana é jornalista.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O destino de Eva Chiavon

Por Sócrates Santana

O governador Jaques Wagner não costuma dar nó em pingo de água à toa. O ingresso da ex-secretária da Casa Civil, Eva Chiavon, ao Ministério do Planejamento, desencadeia uma espiral no tabuleiro político baiano, mas, principalmente, brasileiro. No primeiro plano, o prelúdio de uma reforma administrativa na Bahia. No segundo, o uso de uma cortina de fumaça para esconder as reais intenções do PT paulista para disputar a prefeitura de Santo André.

Por um ano, convivi com o governador dos baianos e pude notar que Wagner, às vezes, como no jogo de xadrez, expõe a rainha para criar mais alternativas, mas, principalmente, preservar o rei. Se por um lado, a pequena Eva Chiavon vira uma subalterna da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, por outro, assume a coordenação do PAC, mas, especialmente, é a primeira da lista para comandar o ministério, caso Belchior, concorra às eleições de 2012 para a prefeitura de Santo André.

Com a proximidade das eleições municipais, nenhuma alternativa é descartada. No caso de São Paulo, a possibilidade de manter acesa às chances da viúva do ex-prefeito Celso Daniel, a ministra Miriam Belchior, de disputar uma das três cabeças do ABC paulista. No caso da Bahia, o senso de oportunidade de quem abre mão da sua principal secretária para participar do núcleo central do governo Dilma Rousseff.

É um olho na missa, outro no padre. Afinal de contas, ninguém é insubstituível. Saiu José Dirceu assumiu a mulher que seria sucessora do presidente Lula. O exemplo, hoje, serve para ambos os lados: Wagner e Dilma. O governador possui muitas obras federais de impacto estrutural no governo baiano. A Ferrovia Oeste-Leste, Porto Sul, Copa 2014, metrô de Salvador, a duplicação da BR 101 e dezenas de obras de saneamento básico ancoradas no PAC.

É verdade que o deputado estadual e pré-candidato à prefeitura de Santo André, Carlos Grana (PT/SP), anunciou a desistência da ministra do Planejamento. Mas, também é verdade de que ninguém ouviu nada de Miriam Belchior. A política é dinâmica para quem acompanha a dinâmica dela. Até por que, esconder o jogo também faz parte.

*Sócrates Santana é jornalista.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A quinta coluna de Alagoinhas

Sócrates Santana

O jeito escorregadio do prefeito de Alagoinhas, Paulo Cezar (PSDB), tem estreita relação com a maneira distante que a família Magalhães tratou por toda a vida os assuntos da Bahia. Assim como o avô, o deputado federal Jutahy Magalhães Junior é visto pela esfera pública baiana como um forasteiro. E como tal, deixa a revelia a política partidária no estado. A saída do prefeito do litoral norte do ninho tucano, portanto, é reflexo de uma prática familiar antiga. O maior problema é que o velho Juracy Magalhães também deixou outros ensinamentos.

No dia 13 de maio de 2010, o governador Jaques Wagner (PT) visitou o município de Alagoinhas. Na oportunidade, Paulo César declarou apoio para a reeleição petista no estado e para o candidato a presidência José Serra (PSDB). Sem pestanejar, o “galego” aceitou a adesão, mas, cutucou: “Político tem que ter lado. Não pode acender uma vela para Deus e outra para o Diabo”. De volta ao agreste baiano, Wagner retornou a Alagoinhas para inaugurar um quarto trecho de uma avenida tão extensa que cabe dentro dela vários nomes e, principalmente, lados: Carlos Gomes, Juracy Magalhães, Luís Eduardo Magalhães e, agora, Joseph Wagner, pai do atual governador dos baianos.

No entanto, o que mais intriga neste aparente movimento de “biruta de aeroporto” conferida ao prefeito de Alagoinhas é o recente anúncio realizado por ele: “É grande a probabilidade de que eu vá para o PDT”. E o mais engraçado é perceber como a história, volta e meia, vai e volta. Após ter sido escolhido na década de 30 pelo ditador Getúlio Vargas como interventor na Bahia, Juracy Magalhães cultivou 15 anos depois uma vida secreta. Foi informante do FBI no Brasil e preparou um novo golpe contra o patrono do PDT, o mesmo Getúlio Vargas que lhe nomeou governador.

Talvez, pouco consciente dessas coincidências da história, o prefeito de Alagoinhas termina por participar de uma intrigante articulação no estado, que revela a mudança de atores, mas, as mesmas intenções de sempre: o comando do poder. Ou a troca dele. O fato é que o fratricídio petista no município de Alagoinhas facilidade a difusão de boatos e uma espécie de quinta-coluna em curso. A desmoralização pública do vereador Miguel Silva (PT) na Câmara de Vereadores e a viabilidade eleitoral do vereador Luciano Sérgio empurra o ex-prefeito e deputado estadual Joseildo Ramos (PT) de volta para o cenário local.

O parlamentar petista, apesar de um curto período no legislativo baiano, demonstra enorme facilidade de analisar e perceber o movimento de cada peça de xadrez na Assembleia Legislativa da Bahia. De como as decisões da sala do cafezinho influenciam a política no estado. Joseildo, portanto, seria uma perda inestimável para a bancada petista. Uma peça a menos neste tabuleiro chamado sucessão. Seja no âmbito municipal, seja no âmbito estadual.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

O que será do PSD

Sócrates Santana


Não é tarefa fácil definir qual será o papel desempenhado pelo PSD na política nacional. A possibilidade do partido produz sintomas por todo o país profundamente ambíguos e conduzem qualquer observador a diagnósticos contraditórios. Se uns parecem sustentar, de modo convincente, que o PSD é um artifício do Palácio do Planalto para esvaziar a oposição ou uma espécie de PMDB alternativo, outros parecem defender, com igual persuasão, que o PSD é ele próprio uma oposição travestida, uma força tão heterogênea que relega a esquerda às margens.
A esfera pública vive dentro de um sistema público muito instável em que a mínima flutuação, inclinação, gesto ou movimento de um ator, seja vereador, prefeito, deputado ou governador, provoca rupturas em qualquer olhar, independentemente de que ângulo o observador esteja. Assim, olhando o PSD, ora vemos um vaso grego branco recortado, ora vemos dois rostos gregos de perfil, frente a frente, recortados sobre um fundo branco. Qual é o verdadeiro? Ambos e nenhum. É esta ambigüidade e a complexidade dela que mais intriga e impacta no partido criado pelo prefeito paulista Gilberto Kassab.
O PSD aparece num período de transição. E como tal, difícil de entender e de percorrer. Nesses momentos, tenho o hábito de voltar às coisas simples, à capacidade de formular perguntas simples, perguntas que, como Einstein costumava dizer, só uma criança pode falar, mas que, depois de feitos, são capazes de trazer uma luz nova à nossa perplexidade.
O progresso do PSD contribuirá para melhorar ou para corromper mais a política? Há alguma relação entre o PSD e o PT? Entre o PSD e o PSDB? Há alguma razão de peso para substituir o fisiologismo do PMDB que já é de conhecimento geral por um partido produzido por poucos e inacessível à maioria (o povo, não os políticos)? Contribuirá o PSD para diminuir o fosso crescente na nossa política entre o que se é e o que se aparenta ser, o saber dizer e o saber fazer, entre a teoria e a prática?
A fase de transição que vive hoje a política brasileira, que deixa perplexo o espírito mais atento e faz a esquerda, principalmente, refletir sobre os fundamentos da política, gera um impacto variado de distorções, ora pelo governo, ora pela oposição. Hoje, somos todos protagonistas e produtos dessa nova ordem, testemunhos vivos das transformações que ela produziu.
Mas, o fato é que não só a oposição, também a esquerda, esta perplexa, porque, perdeu a confiança de interpretar a crise; deixou instalar internamente uma sensação de perda irreparável tanto mais estranha quanto não se sabe ao certo o que estar em vias de perder; talvez, essa sensação de perda seja apenas o medo que sempre precede os últimos ganhos. No entanto, existe sempre a perplexidade de não sabermos o que haverá, de fato, a ganhar.
Daí a ambigüidade e complexidade deste período, elevada, sem dúvida, pela possibilidade do PSD. Daí também a idéia, hoje partilhada por muitos, de estarmos numa fase de transição. Daí, finalmente, a urgência de dar resposta a perguntas simples, elementares, inteligíveis. Numa época de hegemonia quase indiscutível da esquerda no país, a resposta à pergunta sobre o significado sócio-cultural da crise na esquerda, não pode obter-se sem primeiro se questionarem as pretensões do PT. É um partido para o poder ou o poder para o partido? O que será do PSD?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Todas as formas de governo do DEM

Sócrates Santana


O ex-deputado federal José Carlos Aleluia começa mal a entrevista no jornal A TARDE quando afirmar que o DEM é o maior partido de oposição na Bahia. Não é verdade. Ao menos, publicamente, o maior partido de oposição no estado é o PMDB. Seja pelo número de filiados, prefeituras ou deputados, o PMDB é maior. Sendo assim, o DEM será conduzido pelo PMDB de Lúcio Vieira Lima. Não será o contrário.


Como é peculiar aos carlistas, o olho é sempre maior que a barriga. Se não for assim, peço que os peemedebistas corrijam este comentário. Talvez, argumentos não faltem para o PMDB regional, já que o vice-presidente, Michel Temer, é um aliado nacional. Sem dúvida, se o PMDB baiano recusar a condição de oposicionista, aí a avaliação do José Carlos Aleluia estará correta mesmo.


O outro ponto vazio do discurso do presidente do DEM diz respeito à falsa idéia de partido da sociedade. O Democrata é essencialmente não-social. Não possui lastro social. Ou seja: nunca será um partido da sociedade. O filosofo francês Michel Foucault escreveu um livro chamado “Em defesa da sociedade”, onde exemplifica como entender o ódio do DEM contra o PT. Ou seja: Aleluia procura uma justificativa cientifica para permitir o domínio do DEM sobre as forças de esquerda. Aleluia esquece que o DEM sempre utilizou e possuí essa característica de dominação sobre os mais fracos entre os seus correligionários.


De maneira proposital, Aleluia reduz o acúmulo histórico atribuído por todas as frentes populares e progressistas do país ao “petismo”, porque, a única maneira de disputar é generalizar: na boca de Aleluia petismo é sinônimo de governismo, governismo sinônimo de aparelhamento, aparelhamento é sinônimo de autoritarismo. Ou seja: todas as formas de governo do DEM.