quarta-feira, 31 de março de 2010
O Estado do Sim
A candidata petista a presidência, Dilma Rousseff, no lançamento da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) fincou a principal bandeira eleitoral para este ano: a dicotomia do Estado mínimo versus o Estado de Bem-Estar Social. Apostou, mais uma vez, no caráter plebiscitário entre o PT e o PSDB, caracterizando o partido tucano como o partido do não. Ela disse: “O Estado mínimo que nos antecedeu era o Estado do não”.
Nunca foi tão latente o debate sobre a atuação do Estado na condução econômica do país. Mas, não é só economia. Os tucanos procuram sustentar o espírito de continuísmo da política macroeconômica. O presidente Lula, contudo, já apontou a direção, ao enfatizar desde o primeiro mandato que “é chegada a hora da política”. É assim no Brasil e no cenário internacional. Sem receio de apresentar para o mundo a maneira que o país cresce e distribui renda concomitantemente, o presidente brasileiro critica a ausência de regras no mercado, que favorece os aventureiros e oportunistas em prejuízo das verdadeiras empresas e trabalhadores.
Uma leitura mais apressada diria que existe uma contradição entre o discurso da candidata petista Dilma e do presidente Lula. A primeira afirma que o Estado mínimo é o Estado do Não. O segundo defende regras, ou seja, “não” a economia livre de mercado. Não há contradição. Sim, Dilma e Lula falam a mesma língua, dizem a mesma coisa e ambos criticam o Estado mínimo ao promoverem o Estado do Bem-Estar Social.
A candidata petista defende o argumento do Estado planejado e inclusivo, que fortalece as empresas públicas e financia investimentos do setor privado. É o Estado que diz “sim” ao desenvolvimento, “sim” ao crescimento econômico com distribuição de renda e “sim” a desconcentração dos investimentos do governo. O presidente Lula também diz “sim” ao dizer “não” aos inadmissíveis lucros privatizados dos especuladores e suas perdas invariavelmente socializadas. Lula diz “sim” ao “dizer “não” a desregulamentação do mercado financeiro, diz “sim” ao dizer “não” a falta de ética na economia.
A candidatura petista aprofunda a discussão sobre a participação do Estado. Aponta o que é desvalorizado pelos tucanos e valorizado pelos petistas e demais partidos da base aliada. A proposta tucana apresenta um governo que se encarrega de emagrecer o Estado e cortar nas despesas sociais, admitindo que mais policiais tomem as ruas e espanquem a reivindicação legitima dos trabalhadores. A proposta petista apresenta um governo que aumentou a participação da sociedade organizada dentro do Estado e encarou as despesas sociais como a melhor forma de investir e intervir na economia, respeitando os movimentos sociais. Por fim, é o Estado que se quer versus o Estado que se dispensa.
*Sócrates Santana é jornalista e assessor do governador Jaques Wagner (BA).
sexta-feira, 12 de março de 2010
ARTIGO: Somar é diminuir do outro lado
O isolamento equivale ao suicídio político. Na corrida para evitar o cárcere de idéias e interesses, as três vias políticas em evidência na Bahia adiantam o passo para tirar a corda do pescoço de alguns e colocar em outros. PT, DEM e PMDB não medem esforços para aumentar o arco de alianças em torno das suas respectivas candidaturas na conquista pelo Palácio de Ondina. O movimento intenso dos bastidores é tamanho que é até difícil separar o que é camarim do que é palco. A máxima do período é agregar para ganhar, porque, quem empurra não aglutina.
Após a morte do senador Antônio Carlos Magalhães, ruiu um muro de diferenças entre personagens e grupos, anteriormente confinados a determinadas condutas e pensamentos. Isso possibilitou a aproximação de atores inimagináveis, bem como a separação de figuras que eram tidas como inseparáveis no passado. Mas, não é só. O argumento republicano do governador Jaques Wagner, desde o início do governo, preparou o terreno para o atual cenário de livre troca de gestos e alianças. Aparou as arestas internas do seu partido e minimizou as diferenças locais de cada município à querelas pessoais, de pouca serventia ao bem comum da população. Em 2006, Wagner comeu poeira o suficiente para apagar, em três anos, o risco no chão que separava carlistas e anti-carlistas.
É evidente que uns ganharam mais, como o próprio campo encabeçado por Wagner; enquanto outros ganharam menos, como o ministro Geddel Vieira Lima. Mas, quem definitivamente só perdeu foi o grupo liderado pelo presidente do DEM, o ex-governador Paulo Souto. Aos soluços, corre o estado para minimizar a debandada de aliados para os braços dos adversários. O DEM que tinha 153 prefeituras em 2005, diminuiu para 44 municípios, em 2008. Por outro lado, o PMDB manteve a estabilidade, já que encolheu apenas 3%, e o PT cresceu 152% nas eleições de 2008. Em 2005, o PT elegeu 27 prefeitos, 69 em 2008. O PMDB, em 2005, elegeu 117 prefeitos, já em 2008 elegeu 113. Isso significa que, além de perder (e muito) tamanho e espaço no pleito de 2008, o DEM ainda lamenta a saída de grandes puxadores de voto, a exemplo do deputado federal Fernando de Fabinho.
Apesar de afirmar que não escreve um livro de história, mas, o futuro da Bahia, o governador Jaques Wagner deixa claro que conhece bem os escombros da política brasileira e baiana. Em 1955, JK subtraiu numa manobra decisiva, que estimulou os integralistas do PRP a lançar Plínio Salgado, tirando votos da direita que iriam fatalmente para seu adversário em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Espírito Santo. JK teria perdido se a direita tivesse votado em Juarez Távora. Na Bahia da época, em 1954, ascende ao governo baiano uma coligação de forças até então rivais, reunidas por obra de Getúlio Vargas: a UDN juracisista, o PTB getulista e uma dissidência do PSD, liderada por Antônio Balbino, eleito, assim, governador, depois de ter o capital político inflado por Vargas. A coligação derrotada reunia a fina flor da elite do Recôncavo e notórios políticos, inclusive o então governador Régis Pacheco, e seu antecessor, Octávio Mangabeira. Somar, portanto, é diminuir do outro lado.
Em 2006, na Bahia, Wagner reuniu a oposição histórica, atraindo legendas como PMDB, PDT e PPS para dentro deste bloco. Também soube aproveitar o período mais adiante, após a morte do senador. A falta de alinhamento entre a ala soutista e do deputado federal ACM Neto gerou desconforto ao senador César Borges, que decidiu sair do grupo denominado de carlista para ingressar no PR e assumir concomitantemente a direção regional do partido.
As alianças, ora, programáticas e estratégicas; ora, pragmáticas e táticas, encontram fôlego no sistema democrático, que por si só não combina com isolamento, o que propicia composições e aproximações. A partir deste princípio, ergue-se um debate que extrapola o velho revanchismo “nós contra ele”, que deflagra, finalmente, uma reflexão sobre o que é esquerda e direita, variações e o novo consenso da política baiana.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Um senador para cada Bahia
O senador João Durval por enquanto assiste de camarote a sucessão estadual. Não disputa uma das duas vagas destinadas para a Bahia no senado federal, nem esboça qualquer movimento no tabuleiro da esfera política. De longe, observa tranqüilo o jogo de interesses ao redor da composição das chapas majoritárias, especialmente, a encabeçada pelo governador Jaques Wagner. De fora, o senador contempla um cenário que impõe a formação de um quadro misto, que corresponda às novas e as velhas práticas da política baiana.
O ex-governador baiano representou em 2006 a vontade de romper com a vontade de um homem e ao mesmo tempo a manutenção, ainda que subliminar, da cultura patriarcal. Em 2010 a arredia política baiana adiciona ao maniqueísmo de outrora (nós contra ele) um tempero menos apimentado. Porém, mais complexo e cheio de pequenas sutilezas, próprias da democracia. O novo ingrediente é justamente o desgarrar do revanchismo, da política feita com o fígado em nome de uma revisão de conceitos e posicionamentos de ordem conjuntural.
Talvez, de Brasília, distante da cólera das ruas e da opinião publicada, o senador possa ver o período de transição que passa a cabeça do baiano. Por um lado, o fisiologismo dos cargos, a troca de favores e o mandonismo. Por outro, o alinhamento programático dos partidos, o reconhecimento meritório e o diálogo. Mais atrás, a tradição da família, o machismo e o personalismo. Mais adiante, a ascensão social pelo o esforço, o respeito ao gênero e o trabalho em equipe. Do Planalto, talvez, o senador perceba que qualquer uma das candidaturas ao cargo máximo do estado terá que compreender que a Bahia precisa – necessariamente – de mais dois senadores.
No encalço dos candidatos é exigida a escolha de nomes que possam agradar a gregos e troianos. Um problema que o patriarca da família Barradas Carneiro não teve no último pleito, já que compôs o bloco “nós contra ele”. No primeiro plano o enquadramento de um personagem que possua capilaridade no interior do estado. Alguém capaz de arregimentar lideranças do chamado bloco de centro-direito, que circule sem dificuldades no setor empresarial. É o caso de nomes como Otto Alencar, João Leão, José Ronaldo, João Gualberto, César Borges e, em alguns aspectos, o empresário Paulo Cavalcanti e os ex-governadores Waldir Pires e Nilo Coelho. São figuras, em geral, que têm a história marcada pela imagem (aliado ou adversário) do então senador Antônio Carlos Magalhães.
No segundo plano o alinhamento com a política nacional é indispensável. Uma imagem entrelaçada às candidaturas presidenciais e aos blocos partidários. Um nome novo, reconhecido pela população mais jovem e que tenha maior visibilidade na capital baiana. É o caso do prefeito de Salvador, João Henrique, o secretário Walter Pinheiro, o ex-prefeito Antônio Imbassahy e deputada Lídice da Mata. E mais nos bastidores, o senador ACM Jr., o comunista Haroldo Lima e o deputado Márcio Marinho. Sem exceção figuras que compõem uma ala da política baiana que está sintonizada a disputa nacional, principalmente, ao clima plebiscitário estimulado pelas duas e mais evidentes candidaturas a presidência da República: o governador de São Paulo, José Serra, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Do alto do Olimpo do poder o senador João Durval ocupa um lugar, sem dúvida, privilegiado no jogo de xadrez que se tornou a sucessão estadual. Vislumbra de longe o diagnóstico minucioso de cada cenário. Avista o entendimento que a política não é apenas uma questão de soma de um lado, mas, também diminuir do outro. Mas, deve assistir curioso mesmo ao movimento das peças do tabuleiro em volta das conseqüências morais de qualquer decisão. Porque, quem acredita estar livre da responsabilidade, por omissão, por aquilo que outros praticam, é tão culpado como aquele que age diretamente. Isso significa escolher com prudência e parcimônia, privilégio concedido - até então - apenas ao líder das pesquisas e ao único – seguramente - senador baiano, que não pode escolher, mas, pode assistir sem pagar nada por isso.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Uma conversa faz um governo
De todos os avanços deste governo, a utilização do instrumento de consulta popular é um dos mais importantes. Porque, ao menos na democracia, a maioria das mudanças, ocorre a partir de um encontro, uma reunião, uma conversa. Alguns preferem o termo negociação, como queiram. Nós, contudo, optamos pela idéia republicana da governança. Isto é, a democratização da democracia.
O alargamento, a extensão, o aumento da esfera pública tem como princípio a participação institucional da sociedade civil na estrutura do Estado. Desde 2007, isso ocorre via orçamento participativo, conferências temáticas e na formação de conselhos estaduais, além das mesas permanentes de negociação. Ao invés de dividir tarefas e simplesmente estabelecer parcerias, preferimos compartilhar responsabilidades. Dividir significa separar ao meio. Tome cá. Compartilhar é o inverso, significa sempre repartir “com” alguém. Venha cá. Muitas dessas conversas resultam em ganhos reais, transpondo bandeiras de luta via criação de órgãos públicos pautados pela demanda dos segmentos sociais, como mulheres, quilombolas, juventude e povos indígenas.
Ao longo desses três anos, o governador incentivou ao máximo o diálogo permanente. A divisão entre quem fala e quem ouve foi diluída, ganhou uma interface e virou um sentimento de encontro. Wagner costuma falar sempre que tem oportunidade, que desde 2007, o argumento da força perdeu lugar para a força do argumento na Bahia. Ninguém é melhor que ninguém, ninguém existe isoladamente, tão pouco este município é mais importante do que aquele. A Bahia é uma só e todos os 417 municípios. Pôr um fim, numa conversa, significa sempre pôr um fim à política, que é a arte do encontro. E o fim da política significará sempre, duma forma ou doutra, o fim da liberdade.
Para nós, o encontro com a liberdade passa pela política e o encontro com a política, só existe por intermédio do diálogo. A partir deste princípio, o governo iniciou uma espécie de caravana por todo o estado. Em cada município é estabelecida uma conversa franca com a população, que sugere, reivindica e elogia as ações do governo. São verdadeiras audiências públicas com a presença do governador, que praticamente, pela primeira vez na história, esteve em todos os municípios baianos. Quem tem a oportunidade de acompanhar essas visitas aos municípios baianos, volta e meia ouve um burburinho aqui, um comentário acolá sobre o jeito de governar conversando com as pessoas do governador Jaques Wagner.
A presença do governo em todos os 26 territórios de identidade fomenta a esperança nas pessoas, porque, diferente de outrora, nesta gestão, as soluções não são concebidas dentro de um gabinete. Trata-se de uma prática disseminada por uma escola que o principal professor é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É a experiência de quem sabe que as soluções muitas vezes estão bem ao lado. Seja numa carta, num desabafo, ou na simples combinação de idéias, que só podem ser confrontadas se tiverem a oportunidade de – olhos nos olhos – debaterem.
Após três anos de governo, a forma democraticamente formal que herdamos adquiriu conteúdo e produziu musculatura institucional. As instâncias de decisão foram ampliadas e é plausível afirmar que a população já se apropriou do modelo de democracia substancial construído passo a passo por nós. Sem dúvida, é um legado que dificilmente será desfeito, porque, é sustentado por uma vontade geral, reprimida por décadas e consagrada por um governo transparente e republicano. Um sentimento correspondido por quem faz mais para quem mais precisa.
*Sócrates Santana é jornalista e membro da assessoria de imprensa do governador Jaques Wagner.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Música para os ouvidos da Bahia
Pra onde vai uma canção depois do acorde final? A pergunta soa só poética, mas, ao menos para 100 jovens do Núcleo de Estudos de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojibá), a resposta está perto da idéia do que poderíamos chamar de "fazer história". Tal sentimento aumentou após a edição número 30 da Revista Muito editada pelo jornal A TARDE, que deliciou os leitores com uma entrevista épica do pianista Ricardo Castro, novo diretor da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) e principal responsável por uma revolução feita de música de concerto para consertar uma lacuna histórica.
O pianista baiano, natural da cidade de Vitória da Conquista trocou a carreira de sucesso na Europa para transformar a Bahia no maior celeiro de jovens músicos eruditos do país. Depositou no novo governo a crença de uma política permanente de inclusão social da juventude por intermédio da música, inspirado no Sistema Nacional de Orquestras Infantis e Juvenis da Venezuela. Trata-se de uma política de Estado idealizada em 1975 pelo venezuelano José Antonio Abreu, que compreende hoje uma rede de mais de 210 orquestras na Venezuela, atendendo a cerca de 240 mil jovens em todo o país, em sua maioria de baixa renda.
A esperança de Castro enche todos de entusiasmo. Ela recoloca no debate público o papel do artista para a transformação da sociedade e o protagonismo juvenil na seara de qualquer discussão sobre políticas públicas. Sem dúvida, uma empreitada que desafia a lógica de um estado que ignorou por décadas a música e a juventude, e que engessou a nossa arte ao Carnaval de Salvador e as nossas crianças as latinhas. São simplesmente "música para os ouvidos" as palavras de Castro, que participa de uma nova vanguarda, desbravando a Bahia e diminuindo desigualdades ao lado de meninos e meninas da periferia. Em breve veremos a apresentação de um baianinho tão talentoso quanto o maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que aos 27 anos atingiu a excelência, quando a maior parte dos músicos leva 40 anos. Dudamel foi convidado para substituir, a partir de 2009, o finlandês Esa Pekka-Salonen na direção musical da Filarmônica de Los Angeles.
A façanha não é pequena. Dudamel começou a estudar em 1999 na Orquestra Sinfônica Juvenil Simón Bolívar, vitrine da excelência do "Sistema", que revelou também o mais jovem contrabaixista da história da Filarmônica de Berlim Edicson Ruiz, admitido na orquestra aos 17 anos, e hoje com 21. Edicson foi abandonado pelo pai na infância, e trabalhava como empacotador em um supermercado para ajudar a mãe, até que entrou no "Sistema". Lá, foram disponibilizados todos os instrumentos: desde arcos de excelente qualidade até uma formação musical sólida, capaz de atender às altas exigências de qualidade da Europa.
Na Bahia, desde junho de 2007, Castro abriu a primeira seleção para crianças e jovens de 8 a 18 anos. Por aqui, o Neojibá ensina a tocar instrumentos como violino, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta, oboé, clarineta, fagote, trompa, trompete, trombone, tuba e percussão. Jovens artesãos são, também, capacitados a reformar e fabricar instrumentos de corda. A primeira orquestra foi formada em 2007, 15 dias após o início dos ensaios, sob a regência do maestro venezuelano Manuel Lopéz Gomes. Desde então, foram diversas apresentações. Em abril de 2008 foi criada a Orquestrinha, grupo infantil que conta com o monitoramento dos membros da Orquestra Dois de Julho. Ao vanguardista, Ricardo Castro, a eterna gratidão dos baianos e da nossa juventude.
*Sócrates Santana é jornalista
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Romper: verbo transitivo
Sócrates Santana
Por muitos, a passagem do ano é encarada como uma ruptura. Uma mudança brusca, uma guinada de 180º. É compreensível refletir desta maneira, mas, diferente da habitual forma de separar a utopia e a realidade, distinguir o ontem e o hoje, dividir a vida e a morte, fender a alma e o corpo, espedaçar a experiência e a memória, interromper a correnteza de um rio e quebrar os dogmas a partir da dicotomia entre o certo e o errado, a ruptura delineia uma continuidade transitória da história e não o contrário. Romper, portanto, é transitar.
Na ruptura, o presente, o fugidio e o efêmero encontram a sua medida de passado. Neste entrelaçar, o que aconteceu, ocorreu, passou, sempre será a referência de um ponto de partida. Afinal de contas, a vida "são" páginas sobrepostas. Sendo assim, o que existe é o que ficou? Devagar com o andor, porque o santo é de barro. Apesar de conter em si a sua porção do que ficou o que existe também é o que virá. Isso significa dizer que a ruptura carrega consigo a vontade de mudar. Romper, portanto, é mudar.
O termo ruptura é um substantivo, oriundo do latim. O sufixo “ura” indica o resultado de uma ação. Não adianta imaginar – de olhos bem fechados - a sensação de aspirar dia 31 de dezembro e expirar adiante, simplesmente, 1º de janeiro. A mudança transita na vontade de aspirar e expirar, mas, principalmente, no desafio de caminhar, dar o primeiro passo. Sair do estágio de inércia, de quem espera as coisas acontecer por si só e escolher entre o sim e o não, que está no horizonte de qualquer decisão. Romper, portanto, é decidir.
Ao longo dos anos, evitei a ruptura por receio de não encontrar o amanhã, o futuro e perder tudo aquilo que já havia construído. Mas, entendi que romper é transitar entre o passado, o presente e o futuro sem medo deste, ser diferente, daquele; que romper é mudar para melhor, ou se não é melhor, é o que tenho vontade de fazer sem medo desta vontade passar e não me levar com ela; que romper é decidir caminhar sem medo de olhar para trás e perceber que o que ficou é mais seguro. Em 2010, romper é sinônimo de transitar até a felicidade.
*Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
ARTIGO: Vá à Porta do Inferno
A exposição de Auguste Rodin na Bahia traz a tona um campo de disputas, de conflitos, de descontinuidades, de multiplicidade de discursos sobre a política e as artes visuais maiores que as frases anatômicas contidas nas esculturas do artista francês. Uma disputa que não está restrita aos méritos de quem preparou o terreno para a vinda inédita de 62 peças a capital baiana, mas, as denúncias de um relatório composto por 200 páginas sobre a Bahiatursa e obscuras relações entre os governos carlistas, agências de publicidade e organizações não-governamentais formadas por servidores públicos.
Não é difícil ouvir nas rádios e na internet, gracejos de parlamentares e lideranças partidárias sobre a co-autoria desta exposição, assim como, o reforço de comunicadores “sem memória” desta tese. A imprensa baiana vem sendo conivente com todos os cambalachos das gestões anteriores, principalmente, ao não prestar o serviço de memória da história política regional. Ocorre que os conflitos se dão no campo simbólico, mas, pautado por uma clara tática de jogar para de baixo do tapete um passado nefasto em torno de uma agenda positiva construída pela atual gestão estadual. As atuais secretarias de cultura e turismo, claramente, não tocam no assunto por receio deste enredo sujo resvalar uma gota de sua imundice no cenário do agora. No retrovisor do governador Jaques Wagner tem um bocado de carroças tentando pegar carona nos avanços da política cultural deste governo.
Talvez, se a estátua “O Pensador” de Rodin, pudesse e soubesse o teor do conteúdo do relatório do Tribunal de Contas do Estado, entre 2003 e abril de 2005, que apontava movimentações de R$ 101 milhões por meio de uma conta bancária não registrada no sistema de controle do erário baiano, certamente, iria tirar a mão do queixo e sair correndo, como outra obra do artista, “Homem que anda”. Leia mais: http://www.emilianojose.com.br/cartacapital_366.htm.
Como os franceses estão no meio desta roda baiana, um alerta do filósofo Michel Foucault vem bem a calhar. "É preciso admitir um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta. O discurso veicula e produz poder, reforça-o mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo". Ou seja: não há um mundo dividido entre dois discursos, admitido ou excluído, dominante ou dominado. O que existe é um oportunismo deslavado de quadrilhas que se instalaram na Bahia por décadas.
Mas, é cabal apontar o quanto fez mal aos baianos e a imagem da Bahia as maracutaias orquestradas pelos caciques de outrora. Dos R$ 101 milhões, R$ 48,1 milhões foram depositados nas contas de uma agência de publicidade, muita ligada a um famigerado clã baiano. O duto percorria um trajeto nebuloso, que incluía governo e ONG pouco ortodoxa. Apesar da atual gestão não possuir qualquer vinculo com as operações anteriores, qualquer pessoa sensata deduziria que se a lama do passado viesse à tona neste cenário belíssimo proporcionado pelo esforço do governo Wagner, o lodo deles poderia encobrir a brilhante obra de Auguste Rodin em exposição na Bahia. Por fim, fica uma sugestão aos maledicentes línguas e viúvas do carlismo. Calem as bocas e vão bater na “Porta do Inferno”.
*Sócrates Santana é jornalista