quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Um senador para cada Bahia

Sócrates Santana*

O senador João Durval por enquanto assiste de camarote a sucessão estadual. Não disputa uma das duas vagas destinadas para a Bahia no senado federal, nem esboça qualquer movimento no tabuleiro da esfera política. De longe, observa tranqüilo o jogo de interesses ao redor da composição das chapas majoritárias, especialmente, a encabeçada pelo governador Jaques Wagner. De fora, o senador contempla um cenário que impõe a formação de um quadro misto, que corresponda às novas e as velhas práticas da política baiana.
O ex-governador baiano representou em 2006 a vontade de romper com a vontade de um homem e ao mesmo tempo a manutenção, ainda que subliminar, da cultura patriarcal. Em 2010 a arredia política baiana adiciona ao maniqueísmo de outrora (nós contra ele) um tempero menos apimentado. Porém, mais complexo e cheio de pequenas sutilezas, próprias da democracia. O novo ingrediente é justamente o desgarrar do revanchismo, da política feita com o fígado em nome de uma revisão de conceitos e posicionamentos de ordem conjuntural.
Talvez, de Brasília, distante da cólera das ruas e da opinião publicada, o senador possa ver o período de transição que passa a cabeça do baiano. Por um lado, o fisiologismo dos cargos, a troca de favores e o mandonismo. Por outro, o alinhamento programático dos partidos, o reconhecimento meritório e o diálogo. Mais atrás, a tradição da família, o machismo e o personalismo. Mais adiante, a ascensão social pelo o esforço, o respeito ao gênero e o trabalho em equipe. Do Planalto, talvez, o senador perceba que qualquer uma das candidaturas ao cargo máximo do estado terá que compreender que a Bahia precisa – necessariamente – de mais dois senadores.
No encalço dos candidatos é exigida a escolha de nomes que possam agradar a gregos e troianos. Um problema que o patriarca da família Barradas Carneiro não teve no último pleito, já que compôs o bloco “nós contra ele”. No primeiro plano o enquadramento de um personagem que possua capilaridade no interior do estado. Alguém capaz de arregimentar lideranças do chamado bloco de centro-direito, que circule sem dificuldades no setor empresarial. É o caso de nomes como Otto Alencar, João Leão, José Ronaldo, João Gualberto, César Borges e, em alguns aspectos, o empresário Paulo Cavalcanti e os ex-governadores Waldir Pires e Nilo Coelho. São figuras, em geral, que têm a história marcada pela imagem (aliado ou adversário) do então senador Antônio Carlos Magalhães.
No segundo plano o alinhamento com a política nacional é indispensável. Uma imagem entrelaçada às candidaturas presidenciais e aos blocos partidários. Um nome novo, reconhecido pela população mais jovem e que tenha maior visibilidade na capital baiana. É o caso do prefeito de Salvador, João Henrique, o secretário Walter Pinheiro, o ex-prefeito Antônio Imbassahy e deputada Lídice da Mata. E mais nos bastidores, o senador ACM Jr., o comunista Haroldo Lima e o deputado Márcio Marinho. Sem exceção figuras que compõem uma ala da política baiana que está sintonizada a disputa nacional, principalmente, ao clima plebiscitário estimulado pelas duas e mais evidentes candidaturas a presidência da República: o governador de São Paulo, José Serra, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Do alto do Olimpo do poder o senador João Durval ocupa um lugar, sem dúvida, privilegiado no jogo de xadrez que se tornou a sucessão estadual. Vislumbra de longe o diagnóstico minucioso de cada cenário. Avista o entendimento que a política não é apenas uma questão de soma de um lado, mas, também diminuir do outro. Mas, deve assistir curioso mesmo ao movimento das peças do tabuleiro em volta das conseqüências morais de qualquer decisão. Porque, quem acredita estar livre da responsabilidade, por omissão, por aquilo que outros praticam, é tão culpado como aquele que age diretamente. Isso significa escolher com prudência e parcimônia, privilégio concedido - até então - apenas ao líder das pesquisas e ao único – seguramente - senador baiano, que não pode escolher, mas, pode assistir sem pagar nada por isso.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Uma conversa faz um governo

Sócrates Santana

De todos os avanços deste governo, a utilização do instrumento de consulta popular é um dos mais importantes. Porque, ao menos na democracia, a maioria das mudanças, ocorre a partir de um encontro, uma reunião, uma conversa. Alguns preferem o termo negociação, como queiram. Nós, contudo, optamos pela idéia republicana da governança. Isto é, a democratização da democracia.
O alargamento, a extensão, o aumento da esfera pública tem como princípio a participação institucional da sociedade civil na estrutura do Estado. Desde 2007, isso ocorre via orçamento participativo, conferências temáticas e na formação de conselhos estaduais, além das mesas permanentes de negociação. Ao invés de dividir tarefas e simplesmente estabelecer parcerias, preferimos compartilhar responsabilidades. Dividir significa separar ao meio. Tome cá. Compartilhar é o inverso, significa sempre repartir “com” alguém. Venha cá. Muitas dessas conversas resultam em ganhos reais, transpondo bandeiras de luta via criação de órgãos públicos pautados pela demanda dos segmentos sociais, como mulheres, quilombolas, juventude e povos indígenas.
Ao longo desses três anos, o governador incentivou ao máximo o diálogo permanente. A divisão entre quem fala e quem ouve foi diluída, ganhou uma interface e virou um sentimento de encontro. Wagner costuma falar sempre que tem oportunidade, que desde 2007, o argumento da força perdeu lugar para a força do argumento na Bahia. Ninguém é melhor que ninguém, ninguém existe isoladamente, tão pouco este município é mais importante do que aquele. A Bahia é uma só e todos os 417 municípios. Pôr um fim, numa conversa, significa sempre pôr um fim à política, que é a arte do encontro. E o fim da política significará sempre, duma forma ou doutra, o fim da liberdade.
Para nós, o encontro com a liberdade passa pela política e o encontro com a política, só existe por intermédio do diálogo. A partir deste princípio, o governo iniciou uma espécie de caravana por todo o estado. Em cada município é estabelecida uma conversa franca com a população, que sugere, reivindica e elogia as ações do governo. São verdadeiras audiências públicas com a presença do governador, que praticamente, pela primeira vez na história, esteve em todos os municípios baianos. Quem tem a oportunidade de acompanhar essas visitas aos municípios baianos, volta e meia ouve um burburinho aqui, um comentário acolá sobre o jeito de governar conversando com as pessoas do governador Jaques Wagner.
A presença do governo em todos os 26 territórios de identidade fomenta a esperança nas pessoas, porque, diferente de outrora, nesta gestão, as soluções não são concebidas dentro de um gabinete. Trata-se de uma prática disseminada por uma escola que o principal professor é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É a experiência de quem sabe que as soluções muitas vezes estão bem ao lado. Seja numa carta, num desabafo, ou na simples combinação de idéias, que só podem ser confrontadas se tiverem a oportunidade de – olhos nos olhos – debaterem.
Após três anos de governo, a forma democraticamente formal que herdamos adquiriu conteúdo e produziu musculatura institucional. As instâncias de decisão foram ampliadas e é plausível afirmar que a população já se apropriou do modelo de democracia substancial construído passo a passo por nós. Sem dúvida, é um legado que dificilmente será desfeito, porque, é sustentado por uma vontade geral, reprimida por décadas e consagrada por um governo transparente e republicano. Um sentimento correspondido por quem faz mais para quem mais precisa.

*Sócrates Santana é jornalista e membro da assessoria de imprensa do governador Jaques Wagner.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Música para os ouvidos da Bahia

Sócrates Santana*

Pra onde vai uma canção depois do acorde final? A pergunta soa só poética, mas, ao menos para 100 jovens do Núcleo de Estudos de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojibá), a resposta está perto da idéia do que poderíamos chamar de "fazer história". Tal sentimento aumentou após a edição número 30 da Revista Muito editada pelo jornal A TARDE, que deliciou os leitores com uma entrevista épica do pianista Ricardo Castro, novo diretor da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) e principal responsável por uma revolução feita de música de concerto para consertar uma lacuna histórica.
O pianista baiano, natural da cidade de Vitória da Conquista trocou a carreira de sucesso na Europa para transformar a Bahia no maior celeiro de jovens músicos eruditos do país. Depositou no novo governo a crença de uma política permanente de inclusão social da juventude por intermédio da música, inspirado no Sistema Nacional de Orquestras Infantis e Juvenis da Venezuela. Trata-se de uma política de Estado idealizada em 1975 pelo venezuelano José Antonio Abreu, que compreende hoje uma rede de mais de 210 orquestras na Venezuela, atendendo a cerca de 240 mil jovens em todo o país, em sua maioria de baixa renda.
A esperança de Castro enche todos de entusiasmo. Ela recoloca no debate público o papel do artista para a transformação da sociedade e o protagonismo juvenil na seara de qualquer discussão sobre políticas públicas. Sem dúvida, uma empreitada que desafia a lógica de um estado que ignorou por décadas a música e a juventude, e que engessou a nossa arte ao Carnaval de Salvador e as nossas crianças as latinhas. São simplesmente "música para os ouvidos" as palavras de Castro, que participa de uma nova vanguarda, desbravando a Bahia e diminuindo desigualdades ao lado de meninos e meninas da periferia. Em breve veremos a apresentação de um baianinho tão talentoso quanto o maestro venezuelano Gustavo Dudamel, que aos 27 anos atingiu a excelência, quando a maior parte dos músicos leva 40 anos. Dudamel foi convidado para substituir, a partir de 2009, o finlandês Esa Pekka-Salonen na direção musical da Filarmônica de Los Angeles.
A façanha não é pequena. Dudamel começou a estudar em 1999 na Orquestra Sinfônica Juvenil Simón Bolívar, vitrine da excelência do "Sistema", que revelou também o mais jovem contrabaixista da história da Filarmônica de Berlim Edicson Ruiz, admitido na orquestra aos 17 anos, e hoje com 21. Edicson foi abandonado pelo pai na infância, e trabalhava como empacotador em um supermercado para ajudar a mãe, até que entrou no "Sistema". Lá, foram disponibilizados todos os instrumentos: desde arcos de excelente qualidade até uma formação musical sólida, capaz de atender às altas exigências de qualidade da Europa.
Na Bahia, desde junho de 2007, Castro abriu a primeira seleção para crianças e jovens de 8 a 18 anos. Por aqui, o Neojibá ensina a tocar instrumentos como violino, viola, violoncelo, contrabaixo, flauta, oboé, clarineta, fagote, trompa, trompete, trombone, tuba e percussão. Jovens artesãos são, também, capacitados a reformar e fabricar instrumentos de corda. A primeira orquestra foi formada em 2007, 15 dias após o início dos ensaios, sob a regência do maestro venezuelano Manuel Lopéz Gomes. Desde então, foram diversas apresentações. Em abril de 2008 foi criada a Orquestrinha, grupo infantil que conta com o monitoramento dos membros da Orquestra Dois de Julho. Ao vanguardista, Ricardo Castro, a eterna gratidão dos baianos e da nossa juventude.
*Sócrates Santana é jornalista

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Romper: verbo transitivo

Sócrates Santana


Por muitos, a passagem do ano é encarada como uma ruptura. Uma mudança brusca, uma guinada de 180º. É compreensível refletir desta maneira, mas, diferente da habitual forma de separar a utopia e a realidade, distinguir o ontem e o hoje, dividir a vida e a morte, fender a alma e o corpo, espedaçar a experiência e a memória, interromper a correnteza de um rio e quebrar os dogmas a partir da dicotomia entre o certo e o errado, a ruptura delineia uma continuidade transitória da história e não o contrário. Romper, portanto, é transitar.

Na ruptura, o presente, o fugidio e o efêmero encontram a sua medida de passado. Neste entrelaçar, o que aconteceu, ocorreu, passou, sempre será a referência de um ponto de partida. Afinal de contas, a vida "são" páginas sobrepostas. Sendo assim, o que existe é o que ficou? Devagar com o andor, porque o santo é de barro. Apesar de conter em si a sua porção do que ficou o que existe também é o que virá. Isso significa dizer que a ruptura carrega consigo a vontade de mudar. Romper, portanto, é mudar.

O termo ruptura é um substantivo, oriundo do latim. O sufixo “ura” indica o resultado de uma ação. Não adianta imaginar – de olhos bem fechados - a sensação de aspirar dia 31 de dezembro e expirar adiante, simplesmente, 1º de janeiro. A mudança transita na vontade de aspirar e expirar, mas, principalmente, no desafio de caminhar, dar o primeiro passo. Sair do estágio de inércia, de quem espera as coisas acontecer por si só e escolher entre o sim e o não, que está no horizonte de qualquer decisão. Romper, portanto, é decidir.

Ao longo dos anos, evitei a ruptura por receio de não encontrar o amanhã, o futuro e perder tudo aquilo que já havia construído. Mas, entendi que romper é transitar entre o passado, o presente e o futuro sem medo deste, ser diferente, daquele; que romper é mudar para melhor, ou se não é melhor, é o que tenho vontade de fazer sem medo desta vontade passar e não me levar com ela; que romper é decidir caminhar sem medo de olhar para trás e perceber que o que ficou é mais seguro. Em 2010, romper é sinônimo de transitar até a felicidade.


*Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

ARTIGO: Vá à Porta do Inferno

Sócrates Santana*

A exposição de Auguste Rodin na Bahia traz a tona um campo de disputas, de conflitos, de descontinuidades, de multiplicidade de discursos sobre a política e as artes visuais maiores que as frases anatômicas contidas nas esculturas do artista francês. Uma disputa que não está restrita aos méritos de quem preparou o terreno para a vinda inédita de 62 peças a capital baiana, mas, as denúncias de um relatório composto por 200 páginas sobre a Bahiatursa e obscuras relações entre os governos carlistas, agências de publicidade e organizações não-governamentais formadas por servidores públicos.
Não é difícil ouvir nas rádios e na internet, gracejos de parlamentares e lideranças partidárias sobre a co-autoria desta exposição, assim como, o reforço de comunicadores “sem memória” desta tese. A imprensa baiana vem sendo conivente com todos os cambalachos das gestões anteriores, principalmente, ao não prestar o serviço de memória da história política regional. Ocorre que os conflitos se dão no campo simbólico, mas, pautado por uma clara tática de jogar para de baixo do tapete um passado nefasto em torno de uma agenda positiva construída pela atual gestão estadual. As atuais secretarias de cultura e turismo, claramente, não tocam no assunto por receio deste enredo sujo resvalar uma gota de sua imundice no cenário do agora. No retrovisor do governador Jaques Wagner tem um bocado de carroças tentando pegar carona nos avanços da política cultural deste governo.
Talvez, se a estátua “O Pensador” de Rodin, pudesse e soubesse o teor do conteúdo do relatório do Tribunal de Contas do Estado, entre 2003 e abril de 2005, que apontava movimentações de R$ 101 milhões por meio de uma conta bancária não registrada no sistema de controle do erário baiano, certamente, iria tirar a mão do queixo e sair correndo, como outra obra do artista, “Homem que anda”. Leia mais: http://www.emilianojose.com.br/cartacapital_366.htm.
Como os franceses estão no meio desta roda baiana, um alerta do filósofo Michel Foucault vem bem a calhar. "É preciso admitir um jogo complexo e instável em que o discurso pode ser, ao mesmo tempo, instrumento e efeito de poder, e também obstáculo, escora, ponto de resistência e ponto de partida de uma estratégia oposta. O discurso veicula e produz poder, reforça-o mas também o mina, expõe, debilita e permite barrá-lo". Ou seja: não há um mundo dividido entre dois discursos, admitido ou excluído, dominante ou dominado. O que existe é um oportunismo deslavado de quadrilhas que se instalaram na Bahia por décadas.
Mas, é cabal apontar o quanto fez mal aos baianos e a imagem da Bahia as maracutaias orquestradas pelos caciques de outrora. Dos R$ 101 milhões, R$ 48,1 milhões foram depositados nas contas de uma agência de publicidade, muita ligada a um famigerado clã baiano. O duto percorria um trajeto nebuloso, que incluía governo e ONG pouco ortodoxa. Apesar da atual gestão não possuir qualquer vinculo com as operações anteriores, qualquer pessoa sensata deduziria que se a lama do passado viesse à tona neste cenário belíssimo proporcionado pelo esforço do governo Wagner, o lodo deles poderia encobrir a brilhante obra de Auguste Rodin em exposição na Bahia. Por fim, fica uma sugestão aos maledicentes línguas e viúvas do carlismo. Calem as bocas e vão bater na “Porta do Inferno”.

*Sócrates Santana é jornalista

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Lula e o Internacional

Sócrates Santana

“A eleição é igual ao campeonato brasileiro”, comparou o presidente Lula. A declaração foi concedida, supostamente, a colunista Mônica Bergamo. Primeiro, o supostamente é por decorrência da falta de credibilidade da fonte. No caso a fonte é a jornalista Mônica Bergamo. E a dúvida sobre a originalidade da declaração é que sendo profissional da Folha, só acredito na entrevista se estiver na agenda oficial do presidente. E não estava lá. Mas, se Lula disse mesmo, disse com propriedade. Ele tem toda razão.
No início do campeonato brasileiro, o São Paulo saiu como o franco favorito, ao lado do colorado, o time do Internacional. Mas, o Atlético Mineiro despontou na ponta da tabela, assim como o Palmeiras. O colorado, contudo, perdeu a Copa do Brasil para o Corinthians, mas, manteve viva sempre a chama do campeonato brasileiro. Por fora, correu o Goiás, subindo pouco a pouco na tabela.
Já no início deste ano, as pesquisas encomendadas pela Folha e a Globo apontavam José Serra na cabeceira, seguido por Dilma Roussef, que é seguida por Ciro Gomes e Aécio Neves, tendo a Marina Silva na posição de candidata potencial. Mas, as eleições ainda não começaram.
Como metáfora, diríamos que o Palmeiras é o governador Serra; o Inter, a ministra Dilma; o Goiás, a senadora Marina Silva; o Atlético, o governador Aécio Neves; e o Corinthians, o presidente Lula.
E o São Paulo, quem é? É o único tri campeão brasileiro. E, nenhum dos candidatos a presidente podem alcançar tal façanha, apenas Lula, mas, ele não concorre. E por que Lula é Corinthians e não São Paulo? Primeiro, uma opção pessoal; segundo, é o único classificado para a próxima Taça Libertadores das Américas. O único candidato que não é candidato, mas, pode influenciar muito no resultado final desta corrida presidencial. É como o Corinthians, que ainda que esteja classificado, continua na briga pelo titulo nacional, apesar do baque contra o Goiás, no último final de semana. Assim como Lula, após o anúncio da candidatura da Marina Silva.
E a ministra Dilma Roussef fica como nesta disputa? Fica próxima do Palmeiras, quer dizer, próxima de José Serra. E, o Corinthians, torcendo contra o Palmeiras, como sempre. E o São Paulo também. Ou seja: todos contra o Palmeiras. Quem ganha no final?

Ainda baseado na suposta entrevista concedida a jornalista, continuo este paralelo entre futebol e política. Lula teria dito ainda que o melhor elenco ganha a eleição e que o campeonato só começa quando os times entram em campo. Quem não se lembra da eleição histórica de Leonel Brizola, em 1982, no Rio de Janeiro.
O elenco - no entendimento de Lula - é a composição dos partidos que formarão a coligação da campanha majoritária. E, hoje, vale salientar, o maior partido do país, PMDB, está majoritariamente na base do governo. Assim como o PDT, que diferente de nota plantada na coluna painel da Folha desta terça-feira, está fechado com a candidatura indicada pelo presidente Lula. O ministro Carlos Luppi não cogita lançar candidatura, tanto que na Bahia foi o protagonista de uma articulação que garantiu o ingresso do PDT na base aliada do governador Jaques Wagner.
E por falar no governador baiano, é sempre bom lembrar que entrar no campo é com o PT. Na Bahia, em 2006, Wagner contrariou todas as pesquisas de intenção de votos e venceu no primeiro turno. E, diferente do que preconiza o livro do cientista político Alberto Carlos Almeida, a transferência de votos não é um mito. Na Bahia, Lula transferiu votos ao atual governador Jaques Wagner. Se não Lula, as mudanças colocadas em prática pelo governo Lula. E, certamente, não será diferente com a ministra Dilma.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

De Galego para Galego I

Foto: Manu Dias











Sócrates Santana

Quarta-feira, 26 de agosto. Após sair de Santo Antônio de Jesus, o destino é o município de Milagres (a 241 km de Salvador). Sem sinal de celular, entre altos montes, o carro branco da Casa Civil estaciona numa avenida de paralelepipedo recentemente construída para conectar a nova sede da prefeitura com o centro da cidade. Bem na frente, 200 casas populares erguidas pelo governo baiano, local que recebe amanhã (27) a visita do governador Jaques Wagner (PT), que além das unidades habitacionais, também inaugura a loja 287º da Cesta do Povo.
Num estado onde, de tempos em tempos, se tem a sensação da redescoberta, vislumbrar um município de 12 mil habitantes organizado como um condomínio particular do prefeito Raimundo de Souza (PP) é um assombro daqueles ironizados pelo ex-governador Juracy Magalhães, autor da frase: "Pense no absurdo, na Bahia há precedentes". O prefeito de Milagres é proprietário da maioria dos prédios e terrenos da cidade, alugados ou cedidos a própria prefeitura que administra. "Tudo em casa", diria uma desavisado.
Numa conversa na calçada do Hotel Elite, propriedade do prefeito, na sombra de uma banca do jogo do bicho, um morador da velha guarda revelou o descontentamento de Galego, apelido do prefeito Raimundo de Souza, ao apoiar o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) nas próximas eleições. Por décadas, o município de Milagres é um histórico reduto eleitoral carlista, tendo direito, inclusive, de estampar na entrada da principal escola da rede municipal, a imagem do ex-senador Antônio Carlos Magalhães. Mas, o motorista Mário Luna ironizou: "Prepara o coração meu velho, porque, seu voto agora é de Wagner. Agora é de Galego para Galego", brincou, antes de retornar para Santo Antônio de Jesus. O sol amansou e a noite deu reticências finais ao dia, que já anunciava muito trabalho para a próxima manhã.














Quinta-feira, 27 de agosto. Às 10h30, saindo da conturbada entrevista coletiva do Hospital Regional de Santo Antônio de Jesus para a então pacata Milagres. A população saiu do centro e caminhou até o campo de barro na beira da estrada para receber o governador. Na espera, os parlamentares Edson Pimenta e Marcelo Nilo. O povo olha para cima, coloca as mãos na testa e aperta os olhos para evitar a poeira levantada pelo helicoptero. Literalmente, as lideranças de Milagres aprenderam a tomar sol e comer poeira com Wagner. Aos gritos, o povo aclamava a união entre Wagner e Galego.
Já na caminhada entre as 200 casas inauguradas naquela manhã, ao meio de um mundareú de pessoas acaloradas pelo achaque do sol, foi revelada a primeira diferença entre os estilos dos Galegos, respectivamente, do PP e do PT.
Alçado no ombro de um eleitor entusiasmado, o Galego do PP encarou naturalmente a imagem do coronel mandatário do curral eleitoral local, bem ao estilo de quem governa com a mão no chicote e a outra no bolso do dinheiro.
Já o Galego do PT, o governador Jaques Wagner, evitou o constrangimento, a imagem tantas vezes achincalhada pela esquerda, de quem assume a carapuça de salvador da pátria. O fotógrafo Manu Dias ajuda o governador e interrompe qualquer tentativa de elevar Wagner à uma condição que vai de encontro aos seus princípios mais elementares. Wagner prefere andar dentro da multidão, ser mais um entre tantos que ajudam a Bahia a crescer e veio mostrar este modo de governar também ao novo aliado Raimundo de Souza, o Galego de cá.
Na beira das escadas do palanque, um empurra, empurra, disse me disse, envolvendo a segurança do prefeito de Milagres e o deputado estadual Edson Pimenta (PCdoB). Tudo por conta do candidato de oposição derrotado pelo prefeito Raimundo de Souza, no último pleito municipal, Márcio Queiroz (PT). A segurança do prefeito agiu de maneira truculenta, agredindo o deputado Edson Pimenta, o candidato do PT local e, justiça seja feita, a segurança do governador também, que tentou de todas as maneiras salvaguarda a integridade física do governador e de todos os convidados. Um verdadeiro arranca rabo, promovido por jagunços do prefeito, temperado por um comportamento combatido veementemente pelo governador baiano, que bradou em seu discurso para a população presente: "Não gosto de valentão, e, onde estou sempre será bem vindo quem esteve comigo em 2006, assim como, quem está agora do meu lado, um aviso aos que não compreendem este novo momento da Bahia, quem entrou, entrou pela porta da frente".
A fala do governador foi determinante para uma mudança brutal de comportamento do prefeito de Milagres, liderança histórica do carlismo. Raimundo de Souza contemporanizou, pediu desculpas ao seu adversário local e deu uma lição daquelas na sua segurança pessoal. E no palanque disse: "A sigla de partido não importa, mas, o homem de trabalho por de trás do partido, como Wagner". O Galego do PP ainda relatou uma ligação de telefone que recebeu do deputado estadual Angelo Coronel (PP).
- Deputado, agora estamos com Wagner, Raimundo de Souza.
- Nascemos Wagner, Angelo Coronel.
Para Wagner, o encontro de Milagres é um divisor de águas. A presença de Otto Alencar e dos parlamentares Angelo Coronel, José Carlos Araujo e Eliana Boaventura naquela visita a um município marcado historicamente pelo carlismo, representou uma das maiores demonstrações políticas do estilo Wagner de governar nas palavras do próprio: "É preciso sempre deixar a porta aberta para uma conversa".